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Vorcaro exercia influência sobre ao menos oito veículos de comunicação, apontam mensagens obtidas pela PF

Conversas atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicam pedidos de alteração e retirada de reportagens, negociações comerciais e tentativas de interferência na cobertura jornalística. Empresas e profissionais citados apresentaram diferentes explicações, e parte das acusações é contestada.

Da Redação | Top Notícias
Publicado em 18 de outubro de 2026

 

 

Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, apontam que ele teria exercido influência sobre conteúdos publicados por pelo menos oito veículos e grupos de comunicação no Brasil. As informações foram reveladas por reportagens do UOL, da Jovem Pan e do Intercept Brasil, entre outros veículos.

As conversas indicam diferentes formas de relacionamento entre Vorcaro e representantes do setor de comunicação, incluindo solicitações de mudanças em reportagens, acesso antecipado a textos, pedidos para retirada de conteúdos e negociações envolvendo contratos publicitários e participações empresariais.

Entre os veículos mencionados nas apurações estão Metrópoles, Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo (DCM), CartaCapital, Grupo Globo e Portal Leo Dias. Os episódios, porém, apresentam circunstâncias distintas e não permitem afirmar que todos os veículos tenham atuado da mesma maneira.

As informações levantam questionamentos sobre a independência editorial, a transparência nas relações comerciais entre instituições financeiras e empresas de comunicação e os mecanismos de proteção do jornalismo diante de interesses econômicos.

Reportagens teriam sido submetidas à avaliação do banqueiro

Uma das revelações mais detalhadas envolve o portal Metrópoles. Segundo reportagem publicada pelo UOL em 15 de outubro, mensagens extraídas pela Polícia Federal indicam que ao menos 14 reportagens foram encaminhadas a Vorcaro antes da publicação. Desse total, 11 teriam sido alteradas após solicitações do então banqueiro.

De acordo com a apuração, a relação direta com Lilian Tahan, CEO do grupo, se intensificou em 2024, período em que o Banco Master firmou contratos publicitários com o portal.

As mensagens mostram Vorcaro opinando sobre o conteúdo de matérias relacionadas ao banco, pedindo ajustes em informações e sugerindo abordagens para determinadas pautas. Em um dos episódios relatados, ele solicitou a retirada de uma referência a uma empresa de uma reportagem, e a executiva respondeu que atenderia ao pedido.

O UOL também informou que duas reportagens teriam sido publicadas a pedido do banqueiro.

Questionada pela reportagem, Lilian Tahan afirmou que consultar fontes para verificar se uma matéria reflete corretamente as informações fornecidas é uma prática que adota com representantes do empresariado, da política e do Judiciário. Ela negou que os contratos publicitários tivessem relação com a linha editorial do portal e citou publicações críticas à situação das empresas ligadas a Vorcaro.

O caso ganhou repercussão adicional após reportagens indicarem que os valores negociados entre o Banco Master e o Metrópoles chegaram a R$ 51,9 milhões em 2024 e 2025. O portal contestou o total efetivamente recebido, afirmando que os pagamentos realizados somaram R$ 26,9 milhões.

Os valores envolviam diferentes projetos comerciais e publicitários. A existência desses contratos, por si só, não comprova irregularidade, mas a combinação das relações financeiras com as conversas sobre conteúdo jornalístico passou a ser objeto de questionamentos públicos.

Brazil Journal, IstoÉ e PlatôBR também aparecem nas conversas

Outra investigação publicada pelo UOL em 15 de outubro identificou conversas que indicariam interferência de Vorcaro em conteúdos de Brazil Journal, IstoÉ, IstoÉ Dinheiro e PlatôBR, além do DCM e da CartaCapital.

No Brazil Journal, mensagens atribuídas ao fundador do site, Geraldo Samor, indicariam que reportagens relacionadas ao Banco Master eram encaminhadas ao banqueiro antes da publicação. Segundo o UOL, Vorcaro solicitava alterações em textos, e os pedidos eram atendidos em determinadas ocasiões.

A apuração também descreveu relações societárias envolvendo empresas ligadas a Flávio Carneiro, que atuava como assessor de imagem de Vorcaro. Uma dessas empresas passou a deter participação na BJ Conteúdo, responsável por vídeos e eventos associados ao Brazil Journal.

No caso do PlatôBR, as conversas apontariam que Carneiro encaminhava textos ao banqueiro para avaliação prévia. As mensagens também indicariam pedidos relacionados à publicação de conteúdos sobre políticos e pessoas que criticavam interesses ligados ao Banco Master.

A IstoÉ e a IstoÉ Dinheiro aparecem em conversas relacionadas a investimentos, pautas e publicações. Em uma das mensagens reproduzidas pelo UOL, Vorcaro afirmou, ao conversar sobre a revista, que era ali que eles tinham maior controle. A frase foi apresentada no contexto de uma relação que envolvia interesses comerciais e influência sobre conteúdos editoriais.

A apuração também relatou um pedido para a produção de uma capa sobre a farmacêutica Biomm, empresa na qual o banqueiro havia investido.

Os responsáveis pelos veículos e profissionais citados foram procurados pelas equipes de reportagem. Em diferentes casos, não houve resposta até o fechamento das publicações, e o espaço para manifestação foi mantido.

DCM: mensagens apontam acordo para evitar críticas

O Diário do Centro do Mundo (DCM) aparece em outro conjunto de conversas que, segundo o UOL, indicaria a negociação de pagamentos mensais para evitar a publicação de críticas a Vorcaro e ao Banco Master.

De acordo com a reportagem, as tratativas envolveram Felipe Mourão, que atuava na área de reputação digital do banqueiro. As mensagens sugeririam um acordo que incluía a retirada de conteúdos negativos e a possibilidade de publicações direcionadas a pessoas escolhidas pelo grupo ligado a Vorcaro.

A apuração também relatou um episódio em que o banqueiro teria solicitado a retirada de um artigo crítico ao Master, pedido que, conforme as mensagens divulgadas, foi atendido.

O DCM contestou as informações. Em posicionamento reproduzido pela Jovem Pan, o veículo negou ter recebido recursos, pagamentos ou benefícios das pessoas investigadas e afirmou que publica reportagens críticas a Vorcaro. O portal também informou que seu departamento jurídico acionaria o UOL em razão da publicação.

A contestação evidencia a importância de analisar as mensagens, os registros financeiros e os esclarecimentos apresentados pelos envolvidos antes de estabelecer conclusões definitivas sobre eventuais irregularidades.

CartaCapital nega interferência editorial

A CartaCapital também foi citada na investigação do UOL em razão de contratos publicitários, adiantamentos financeiros e conversas sobre uma possível participação societária relacionada à publicação.

Segundo a reportagem, a relação comercial com empresas ligadas ao Banco Master teve início antes dos demais episódios descritos na apuração. As mensagens também indicariam discussões sobre recursos financeiros para a manutenção das atividades da revista e uma possível entrada de Vorcaro como sócio, negociação que não teria sido concretizada.

A publisher Manuela Carta negou que tenha ocorrido interferência editorial. Em manifestação divulgada em resposta às informações, afirmou que os contratos publicitários seguiram práticas comerciais de mercado e que Vorcaro não lhe pediu a publicação de notícias positivas nem mudanças no conteúdo jornalístico.

A executiva também ressaltou a separação entre os setores comercial e editorial da empresa.

O episódio reforça a necessidade de distinguir a existência de contratos comerciais, que podem ser legítimos, de eventuais tentativas de condicionar o conteúdo jornalístico a interesses de anunciantes ou investidores.

Grupo Globo: conversas envolvem executivo e pedidos relacionados a publicações

O Grupo Globo também aparece nas reportagens sobre as relações de Vorcaro com o setor de comunicação. Segundo informações divulgadas pela Jovem Pan, mensagens envolveram Frederic Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do grupo.

As conversas incluiriam pedidos relacionados à divulgação de conteúdos sobre Martha Graeff, então namorada de Vorcaro, e uma empresa ligada a ela. Após os contatos, publicações de veículos do grupo abordaram o lançamento da marca.

As mensagens também indicariam reclamações do banqueiro sobre a cobertura jornalística do Banco Master e tentativas de discutir a abordagem de assuntos de seu interesse.

Entretanto, é necessário diferenciar os pedidos relatados da comprovação de que houve interferência efetiva em reportagens específicas. As conversas divulgadas não demonstram, por si só, que todas as solicitações tenham resultado em alterações editoriais.

Em 15 de outubro, o Grupo Globo anunciou o desligamento de Kachar após tomar conhecimento das mensagens. Em comunicado, a empresa classificou como inadequada a relação do executivo com um anunciante e reafirmou seu compromisso com a independência editorial.

O grupo também ressaltou que seus veículos mantiveram cobertura crítica sobre o Banco Master.

Portal Leo Dias: mensagens mencionam negociação e retirada de reportagem

O Portal Leo Dias aparece em apurações que envolvem negociações no setor de comunicação e o relacionamento entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, ex-sócio do Grupo Leo Dias de Comunicação.

Em reportagem publicada em maio de 2026, o Intercept Brasil revelou mensagens que indicariam que Vorcaro reclamou de uma notícia sobre o filme Dark Horse, produção que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O conteúdo havia sido publicado pelo portal em agosto de 2025 e foi retirado do ar cerca de uma hora depois.

Segundo o Intercept, Miranda informou ao banqueiro que pediria a exclusão da reportagem e, posteriormente, comunicou que a providência havia sido tomada.

O Portal Leo Dias afirmou que a matéria foi retirada porque a equipe não tinha segurança suficiente sobre a apuração. A empresa declarou que a decisão passou por Miranda, então CEO do veículo, e negou que a exclusão tenha ocorrido necessariamente por determinação externa.

Outra reportagem, publicada pela Jovem Pan em outubro de 2026, revelou uma conversa entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, na qual eram mencionadas propostas relacionadas à Rádio Transamérica e a um contrato para adquirir participação em um negócio ligado a Léo Dias.

O diálogo, entretanto, não comprova que as propostas tenham sido formalizadas ou que uma aquisição tenha sido concluída.

O que as revelações representam para o jornalismo

Os episódios descritos nas reportagens apresentam diferentes níveis de evidência e envolvimento. Em alguns casos, as mensagens indicam pedidos de alteração de textos e acesso prévio a reportagens. Em outros, o foco está em contratos publicitários, relações societárias ou tentativas de influência que precisam ser analisadas individualmente.

A questão central é a preservação da independência editorial. A publicidade é uma fonte legítima de receita para veículos de comunicação, assim como investimentos e parcerias comerciais podem fazer parte da atividade empresarial. O problema surge quando interesses financeiros passam a determinar o que será publicado, omitido ou alterado em uma reportagem.

A transparência nas relações entre anunciantes, investidores, dirigentes e jornalistas é fundamental para que o público consiga distinguir conteúdo jornalístico de interesses particulares.

No caso de Vorcaro, as mensagens divulgadas pela imprensa ampliaram os questionamentos sobre a utilização de recursos financeiros e relações pessoais para tentar influenciar a cobertura de assuntos relacionados ao Banco Master e a pessoas de seu interesse.

As revelações também evidenciam a importância do trabalho de investigação jornalística e da atuação das autoridades responsáveis pela análise das mensagens e dos registros financeiros.

Investigações e direito de resposta

As informações reunidas nas reportagens são baseadas principalmente em mensagens atribuídas a Vorcaro e extraídas de seu celular pela Polícia Federal, além de documentos e registros relacionados às relações comerciais citadas.

A divulgação desses elementos não significa que todas as condutas relatadas tenham sido definitivamente reconhecidas como ilegais. Cada episódio precisa ser avaliado conforme as evidências disponíveis, as circunstâncias das negociações e os esclarecimentos apresentados pelos envolvidos.

Os veículos e profissionais citados apresentaram respostas diferentes: alguns negaram interferência editorial, outros contestaram as informações ou justificaram as decisões tomadas, enquanto determinadas pessoas não haviam se manifestado até o fechamento das reportagens consultadas.

O acompanhamento das investigações será importante para esclarecer a extensão das relações descritas nas mensagens e verificar se houve irregularidades financeiras, comerciais ou editoriais.

O caso permanece relevante para o debate público sobre a autonomia da imprensa, a responsabilidade de empresas de comunicação e os limites éticos das relações entre o poder econômico e a produção de notícias.

Fontes consultadas:

  • UOL — Brazil Journal, IstoÉ: como Vorcaro montou rede de influência em sites, publicada em 15 de outubro de 2026.
  • UOL — Vorcaro editava textos do site Metrópoles antes de irem ao ar, publicada em 15 de outubro de 2026.
  • Jovem Pan — Vorcaro exercia influência sobre ao menos oito veículos de comunicação; veja lista, publicada em 16 de outubro de 2026.
  • Jovem Pan — Mensagens entre Zettel e Vorcaro citam oferta pela Transamérica e contrato para “comprar Leo Dias”, publicada em 12 de outubro de 2026.
  • Intercept Brasil — Portal Leo Dias apagou matéria sobre “Dark Horse” após bronca de Vorcaro, publicada em 21 de maio de 2026.

O Top Notícias acompanha os desdobramentos do caso e eventuais novos esclarecimentos das partes envolvidas.